Veuve Clicquot e a arte de celebrar
A elegância, inovação e legado que definem os 250 anos de história de Veuve Clicquot vão muito além dos premiados champagnes que brindam as celebrações mais icônicas ao redor do mundo. Por trás do sucesso longevo da Maison, existe uma mulher que assumiu o controle do próprio destino e, com paixão e determinação, consolidou-se como “La Grande Dame du Champagne”. Seu nome era Barbe-Nicole Ponsardin, filha de uma abastada família bourgeoise, que mais tarde ficaria conhecida como La Veuve Clicquot (“veuve”, em francês, significa viúva).

Em 1798, aos 21 anos, Barbe-Nicole casou-se com François Clicquot, em uma união estratégica entre duas famílias rivais da indústria têxtil de Reims. O casamento, porém, rapidamente se transformou em uma verdadeira parceria. Com a bênção do pai, François decidiu deixar de lado os negócios têxteis e dedicar-se, ao lado dele, ao modesto empreendimento da família: a casa de vinhos espumantes Clicquot-Muiron et Fils, enquanto sua esposa se dedicava ao lar. Inesperadamente, em 1805, François adoeceu subitamente e morreu poucos dias depois.
Em uma época em que as mulheres eram excluídas do mundo dos negócios e não podiam sequer ter uma conta bancária própria, Barbe-Nicole não se deixou abalar. Tomou uma decisão raríssima para uma mulher de sua classe — afinal, não precisava trabalhar e poderia ter passado a vida como anfitriã da haute société. Com seu espírito empreendedor, estava determinada a dominar o ofício e fazer a Maison crescer, afinal a arte já corria em suas veias — sua avó havia trabalhado em uma vinícola gerações antes.
Concluiu um aprendizado de quatro anos com um produtor local em busca de formas de fazer seu negócio prosperar e transformou sua condição de viúva em estratégia de marca. A casa de Champagne passou, então, a se chamar Veuve Clicquot-Ponsardin. O termo “veuve” deu um ar de respeitabilidade à bebida — algo essencial em uma época em que o champagne ainda era associado à libertinagem e às festas extravagantes das antigas cortes reais antes da Revolução de 1789.

A demanda por seu champagne aumentou tanto que Mme. Clicquot-Ponsardin temeu não conseguir atender a todos os pedidos. Na época, a produção de champagne era um processo extremamente trabalhoso e ineficiente, e ela logo percebeu que, para acompanhar o ritmo do mercado, precisaria aprimorar a técnica de fabricação.
O champagne era produzido pelo método ancestral, o Pét-Nat (abreviação de pétillant naturel, em francês, “espumante natural”), que conserva naturalmente o sedimento da fermentação, as chamadas leveduras mortas. Naquela época, as garrafas eram vendidas com o depósito ainda dentro, e cabia ao consumidor decantar o líquido antes de servir. Barbe-Nicole, porém, detestava esse aspecto turvo: para ela, um grande champagne precisava ser límpido e cristalino. Visionária, ela criou uma solução engenhosa: inclinou a garrafa e passou a girá-la lentamente até que a levedura se acumulasse no gargalo.
Assim nasceu a técnica manual do remuage, ainda usada pelos produtores de champagne até hoje.
A invenção de Barbe-Nicole revolucionou o setor – seu champagne tornou-se mais claro, refinado e rápido de produzir. Levaria décadas ate que outros produtores descobrissem o método, garantindo à Madame uma vantagem inigualável no mercado. Foi ela também quem criou o primeiro champagne vintage, em 1810, e o primeiro rosé d’assemblage, em 1818 — um rosé obtido pela mistura de vinhos tintos e brancos, uma ousadia na época, quando tal prática era considerada impensável.
Nos últimos anos de sua vida, ela deixou registrado seu modo de ver a vida em uma carta escrita a um de seus netos: “O mundo está em perpétuo movimento, e precisamos inventar as coisas de amanhã. É preciso ir à frente dos outros, ser determinado e exigente, e deixar que a inteligência guie a sua vida. Aja com audácia.”

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